'De noite não é tanto, a fadiga e o silêncio nos ajudam [...] e às vezes dormimos até o amanhecer e nos desperta um esperançado sentimento de alívio.'
[.cortázar.]
[.the.dreamers.]
As janelas estavam abertas numa monotonia que parecia ser de um domingo, mas na verdade ainda era terça-feira à tarde, e as flores estavam dispostas em tons injustificáveis. As galerias de vidro refletiam o céu branco e casto de outono, com suas folhas amareladas e os sorrisos gastos das vitrines. A estação trazia consigo algo de leve e terrível, que invade as segundas, terças, quartas, quintas e domingos à tarde - porque a sexta e o sábado estão sempre repletos de certa divindade, como que suspensos no tempo - e os dias se tornavam iguais e claros, como todos os outros dias de outono, avançando lentamente até que o relógio marque 23:59. A noite também era monótona, mas ainda que as cortinas se abrissem, não haveria cor nem riso, apenas um silêncio cortante que coloria de vermelho um céu quase chuvoso. A manhã - talvez de terça ou quarta -, com seu café, seu açúcar, o vento que oscila nas primeiras horas, as pausas ao andar e a incerteza do dia, abria o céu em tons estourados de cinza e branco que perpassa as árvores, os olhos, as conversas, as galerias, as folhas amareladas e as flores que morrem.