quinta-feira, 21 de agosto de 2014

.de.um.lugar.qualquer.21.de.agosto.de.2014

 [.foto.thais.zimmer.martins.]

"não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby,  não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída"
[.caio.abreu.]


Querida M. Batata,

eu sei que não te escrevo há séculos, que ando ausente, que quero te ver. Você sabe como são as coisas, às vezes a gente não tem muito o que falar e às vezes a gente quer falar e não sabe como. Hoje eu não queria falar, nem escrever, nem ler. Precisava me esvaziar. Eu andei, andei aleatoriamente, passei em lojas de decoração e vi pratos, copos, camas, tudo bonito, e não tinha mais o que fazer. Inevitavelmente parei em um café. Essa era a minha hora de folga. Sem leitura, sem escrita, sem internet, sem nada. Peguei meu macchiato, sentei. E então? E então nada. Devia estar com meu livro, pensei, mas não. Sem poder permanecer no café por mais tempo, dada a agonia que era não ter nenhum tipo de papel escrito por perto, fui parar em uma livraria. Ninguém compra livro às noites de quinta-feira, a livraria estava vazia. Havia muitas, muitas estantes com best-sellers, muitas mesmo, e eu decidi que se leria alguma coisa naquela hora, tinha de ser algo diferente de mim. Eu deveria ter escolhido Nicholas Sparks ou aquele outro... que escreveu The Fault in Our Stars. Mas isso seria um pouco demais. Então escolhi Caio. Achei que era uma espécie de meio-termo. O livro chamava Morangos Mofados e o primeiro conto era extremamente ruim. Mas como eu já estava ali e ele também, continuei. O segundo conto, bem. Ele não é tão bom, mas é tão cru, tão destrutivo e tão infelizmente real. Você sabe como é, você lê Caio. Você sabe como ele é. Ali, junto com Clarice. Ainda que ele tenha o ascendente em Peixes, entre numa de descrever sonhos de vez em quando, e tenha um papo muito pseudo-psicanalístico. Às vezes ele acerta de maneira encantadoramente destruidora. Notei que meu plano de me distrair por uma hora - ou duas - tinha falhado miseravelmente. E o plano B, de ler uma coisa distante de mim, também. E eu pensei em você,  make the typewriter sings, Ovelhas Negras, e em tudo que continuava o mesmo, e em tudo que tinha mudado, o cinza, o mar, o que sempre volta, os remos, o barco de papel, o ponto que não vem [nunca vem]. Pensei na sua última carta e na constante insônia. Pensei no quanto havíamos mudado e no quanto não havíamos. Hoje não chove, mas li Abreu, o que dá quase no mesmo. Pensei na sua carta e queria te dizer que também me sinto no meio. Que também tenho escrito pouco e [quase] não me importo com isso.

Levantei, pus o livro de volta na estante. Meu orgulho não me deixou comprar. Então vim para casa e abri o laptop, porque me veio uma vontade imensa de te escrever.

Literatura é pior do que cocaine, querida. Ela consome suas noites, seus dias, o seu trabalho, as suas eventuais férias e a sua vida. Quando você se dá conta, está vivendo dentro de um livro. Que Deus me livre das epifanias, amém.

Com amor e [muita] saudade,

Lissa.

domingo, 29 de junho de 2014

.remetente.anônimo.

Joanna dizia: “me diga que horas são, querida, me diga antes que seja tarde, que seja muito longe, me tire deste tédio, deste inferno particular no qual me encontro, me tire, querida, e me diga como se regam as flores nas tardes terrivelmente quentes de janeiro, me diga como não deixá- las morrer, me diga como contar as horas que passam correndo à minha frente, deixando apenas fumaça e suor, deixando a saudade, a nostalgia líquida, aquela que não posso reter”.

Joanna dizia e olhava as margaridas, repetindo silenciosamente, esperando que as palavras fizessem qualquer coisa além dela mesma. As cartas chegavam entre segunda e quarta, sempre pela manhã, mas ela só as via pelo meio-dia, pois acordava sempre às dez. Os papéis permaneciam vazios, longínquos de uma frieza que só se via quando se pegava neles. Tão duros e castos. Não escrevia uma palavra há uma semana - nem mesmo respostas às cartas que se acumulavam na mesa-de-cabeceira - e esperava que elas fossem vir, como sempre vieram, numa espontaneidade suave que a entretia por horas e horas.

As cartas que chegavam de Luisa permaneciam tristes, e traziam sempre uma angústia de não estar lá, de que Joanna nunca poderia ajudar em nada. De certa maneira, as duas se bastavam como irmãs que pouco se viam e se encontravam entre o silêncio das repostas, o não-dizer da tristeza e a saudade de pouco se verem. Luisa dissse, na última carta - que Joanna viu por volta das 11:30 - que as palavras viriam logo, elas sempre vêm, e se não viessem, que deixasse o livro para lá.

Jean dizia que Joanna devia relaxar e ler um livro - ler livro é sempre coisa boa para escritor - ler Clarice, de repente, Flaubert. As palavras virão, ele dizia, mas você não pode pensar nelas. É preciso deixar que venham por conta própria. E ler livro sempre ajuda.

Mas Jean não sabia nada sobre arte. Trabalhava no escritório e era um agente barato, que não custava muito à Joanna. Joanna o escutava, pensava e deixava as palavras de Jean escorrerem lentamente, enfileiradas, pela persiana entreaberta do escritório.

Carlos estava parado havia um mês, sem sair da frase: “Então deixou seu copo de uísque demasiadamente cheio na mesinha da sala, e deitou-se até o sol surgir”. Um mês sem história é coisa demais, Joanna. Coisa demais para mim e para ele, personagem sem graça, mas o único que tenho. Coisa demais para a editora que esperava o livro de Joanna pacientemente, tic tac, o livro que não existia.

Jean achava Carlos muitíssimo frívolo. Um homem sem grandes ambições, sem grandes histórias, sem um grande plot. Livro bom era livro com um plot daqueles. Como o último de Joanna. Desse ele gostava. Era bom mesmo. Sucesso de vendas. Joanna tinha que escrever outro daquele. Tão bom quanto. Não, não. Melhor. Isso, melhor. Um livro com violência, sexo e paixão. Dos bons. O que você escreveu Joanna? Joanna leu a frase para ele: “Então deixou seu copo de uísque demasiadamente cheio na mesinha da sala, e deitou-se até o sol surgir”. Eu gostei, disse Jean, essa coisa de “até o sol surgir” é bem solene. Bom, eu gostei. E o que mais? Não tem o que mais, Jean, não tem.

Jean respirou profundamente, levantou-se da cadeira e foi pegar um copo de café, para relaxar, perguntou se Joanna queria, e como ela dissesse que não, disse que a veria sem falta na próxima quarta, e queria era ver
material novo, material dos bons, porque a editora já estava começando a ligar.

***

A manhã era tardia e os olhos azuis de Carlos se espalhavam sobre ela. O cheiro forte e amargo, do cigarro, ele fumava sempre antes do café. O primeiro cigarro é sempre o melhor do dia, ele dizia. A fumaça difusa nebulava seus olhos entreabertos e a figura de Carlos que sorria, de uma delicadeza que apenas os pais tinham ao olhar seus filhos meio adormecidos. Desde criança ela não era olhada naquela maneira. Vendo-o ali, sentado à cama, respondia o “bom-dia” daqueles olhos brilhantes, que eram sempre mais claros pela manhã.

Gostava da espontaneidade com a qual ele havia surgido. Foi um dia de repente, e ela o encontrara sentado na mesa da sala, ele perguntou se não havia vinho e disse que odiava o uísque que ela dava a ele a cada linha nova do livro. Nervosa, ela foi até a cozinha, encheu duas taças de vinho, tomou uma aspirina e voltou à sala. Teve a impressão súbita de que se conheciam a meses. Chamou-o para ficar.

Desde então, evitava mostrar a Carlos que não terminaria o livro. Desconfiava, secretamente, de que ele sabia, mas também preferia não tocar no assunto. Enquanto passavam as horas, Carlos e Joanna viviam um pouco como irmãos. As tardes eram salpicadas de jazz e cigarro, de vinho barato, bombons de cereja e poesia. Pela primeira vez, em tanto tempo, ela não estava sozinha, afundada em cobertores ou presa à máquina de escrever. Os dias eram vivos e claros, e mesmos nos dias frios havia fondue e lareira. Carlos vivia de uma maneira que sequer parecia uma criação dela. Ele era tão doce e gentil que ela nunca poderia imginar ninguém assim, com o coração tão fundo e
com gestos sutis que empenhavam-se em cantarolar pequenos versos de sonetos, escolher discos e gesticular com o cigarro na mão direita, enquanto a esquerda segura uma taça de vinho. Por ser tão magro e alto, olhava Joanna de cima com extrema doçura, e segurava seu queixo ao dizer o quanto ela estava radiante todos os dias.

E ela, como respostas a seus gestos, dedicava todo o seu tempo a ele. Já não atendia mais Jean e as cartas de Luisa, estas não recebia há algum tempo. Parou de escrever, mas isso não parecia influenciar na existência de Carlos de maneira nenhuma. Agora, ele já existia além dela, e começava a achar, como uma pequena angústia desesperada, que ela mesma já dependia dele para viver.

Foi por isso que a carta caiu como um trovão sobre sua cabeça. Carlos havia saído desde a hora do almoço e não voltava ainda. Enquanto escolhia um disco, ouviu, na sala silenciosa, um farfalhar de folhas que foram jogadas sob a porta da frente. Abriu a porta e não viu ninguém, apenas suas margaridas e a grama verde que regara no dia anterior.

Abriu a carta e tudo que achou foram letras pequenas e irreconhecíveis, que destruíram sua vida de uma só vez. Mas seria possível? Seria Carlos capaz? Chorosa, foi até a gaveta do quarto e pegou o vidrinho para casos extremos. Serviu-se de um copo de vinho, escolheu um disco, deitou no sofá da sala, releu a carta e chorou novamente, até o fim da tarde.

Quando Carlos a encontrou adormecida no sofá da sala, “A fool for you” tocava na vitrola. Tentou andar lentamente, para que ela não acordasse e não notasse que ele se aproximava. Ele havia comprado os deliciosos bombons de cereja, que Joanna sempre comia como uma criança. Seus pés apoiavam-se no braço do sofá. Carlos ia acordá-la mas uma taça de vinho estava quebrada no carpete vermelho e os braços de Joanna dependurando-se do sofá, pareciam brilhar
àquela hora da tarde. Joanna vestia o vestido azul que Carlos gostava, e seu rosto, terrivelmente calmo, parecia não sentir nada. Ele deixou caixa de bombons enlaçada na mesa de centro e sentou no sofá e pôs os braços de Joanna, já frios, em cima do sofá e abraçou-a como nunca mais a fosse ver de novo. Seus olhos choravam inconscientemente. O vidro de veneno já estava vazio em baixo da mesa, e por entre os cacos do copo de vidro, havia uma carta borrada, que Carlos leu com raiva e deixou no carpete molhado.

***

Não existiu noite que não perpassou Joanna. Não existiu estrela que surgisse sobre seu teto e não deixasse algum resto apagado sob a mesa de jantar. Os restos caminhavam até seu quarto, pelas primeiras horas da manhã, e se instalavam sob a sua escrivaninha e por entre as teclas da máquina de escrever. Algumas vezes, se arrastavam até seus travesseiros e se instalavam em sua cabeça e seu coração, e quando Joanna escrevia Carlos, o seu ser já estava todo infestado desses restos de estrelas. Elas sempre chegavam até Carlos pois era até ele que sempre queriam chegar , chegavam e iluminavam as noites dele, tão foscas de fevereiro. E mais pareciam luzes apagadas, fugidias de si mesmas. Foram estes restos luminosos, ainda, que fizeram Carlos começar a beber, entregar-se ao uísque todas as noites, pois elas nunca se iam realmente, mesmo quando era dia.

Porém, foram as mesmas doses de uísque que fizeram Carlos entregar-se à máquina de escrever, escrevendo demasiadamente, dia e noite, dando um fim ao livro que Joanna não terminou.

Volta e meia, ele perguntava-se se era o que ela realmente gostaria, ver aquele livro pronto, que apesar de

ter apenas duas páginas quando ele pegou para continuar, sempre fora muito mais dela do que dele. Resolveu chamá-lo “A luz que vem dos teus olhos” e arranjou um agente.

Mesmo agora, depois de ter terminado o livro e ter vendido muitas cópias, em alguns dias, quando chega uma carta nova de Luisa sempre reclamando que Joanna não a responde mais, Carlos ainda contém as lágrimas de achar que sua própria vida não passa de um engano, de um terrível acaso do destino, de uma infeliz história mal contada. 

terça-feira, 17 de junho de 2014

.aqueles.pontinhos.brilhantes.

“As grandes revelações da natureza sempre impressionam e eu não estava de todo desacostumado a ter aquele tipo de sensação. As montanhas oprimem, os oceanos aterrorizam, o mistério das grandes florestas tem um efeito peculiar sobre cada um de nós. Mas todos esses sentimentos estão ligados, de uma forma ou de outra, à experiência humana, à própria vida.”

[.algernon.blackwood.]

- Olha pro céu. O que você vê?

Era uma daquelas tardes frescas de primavera. O céu estava de um azul límpido e impecável, sem nenhuma nuvem sequer. Nenhum pássaro. Nenhum ser alado. Os dragões e as fadas deviam dormir, porque nenhum voava naquele dia ensolarado. Com exceção de nós dois.

Nesse tempo, nossas horas eram muito para conversas existenciais, um pouco para livros e quase nada para a escravidão pós-moderna. Para tais conversas e eventuais silêncios, costumávamos voar até algum lugar extenso e sossegado. Se bem me lembro, estávamos no campo de dentes-de-leão. O lugar preferido de Ludovick, à época.

Como eu não respondesse, Ludovick retomou:

- O que você vê no céu? - olhando-me.

- Pontinhos multicoloridos. Milhares de pontinhos coloridos... E saltitantes. - eu respondi, enquanto estudava o céu atentamente.

- Pontinhos? – ele parecia surpreso.

- Sim. Como uma TV com defeito.

Agora ele voltou voltou-se para o céu, como a procurar os tais pontinhos, e disse:

- Engraçado.

- Por que engraçado? – eu perguntei, quase contrariada, olhando diretamente para ele.

E ele ainda olhando o céu. Tinha as sobrancelhas semicerradas. Com o ar analítico de sempre, respondeu: 

- A maioria das pessoas vê formas. Elefantes, corações, formas de todos os tipos e tamanhos variados.

- Mas que pessoas...?

- Ah Phexias... As pessoas, ora.

- Ah, sim.

- Isso deve dizer algo sobre você.

- O que?

- O fato de você ver pontos saltitantes num céu limpo... Isso deve dizer alguma coisa sobre você. Só não sei o que.
Por muito anos, refleti sobre as palavras de Ludovick e sobre o que aqueles pontinhos diziam sobre mim. Evidentemente, nunca deixei de vê-los. E a cada céu límpido eu os vejo, saltitantes, intrépidos, coloridos.
Há duas semanas descobri a causa dos tais pontinhos. Labirintite. Somado a outros - muito mais terríveis - sintomas: tonteira, desequilíbrio, falta de norte, manchas cinzas que invadem meus olhos pelos cantos, entre outros que não valem a pena a extensão do parágrafo.
Hoje andei à beira do mar. Coisa que gosto muito e há tempos não fazia. Entrevia-se uns pedaços de céu azul. Mas estava essencialmente nublado. A praia estava vazia, o mar revolto e as nuvens carregadas. Ainda assim, ainda que o céu estivesse repleto de nuvens, eu via meus pontinhos saltitantes. Multicoloridos, mas dessa vez em gray scale - mais assemelhados, agora, a uma TV com defeito.

Foi um pouco perturbador andar à beira do mar com eles pulando à minha frente, sobre mim, dentro das nuvens, por todo o  horizonte.

Eu olhava, quase todo o tempo, para a frente. Havia a praia, infinita. O desenho da beira que se prolongava até que eu me perdesse. Aquela infinitude me tonteava. Os pontinhos do céu só pioravam a tonteira, me chamando sempre a alcançá-los. Distantes. Foi quando notei o que eles diziam sobre mim. Ainda que seja mais labirintite do que poesia, eles fazem-me sempre seguir intermitentemente adiante, tentando alcançá-los. Mas sem nunca parar de seguir em frente.

Talvez por isso eu sempre gostara dos campos abertos, das alturas estonteantes, das estrelas inalcançáveis. Mesmo apavorada por essas paisagens, preciso delas para dimensionar a imensidão do mundo e de como ele me perde. Esta sensação difusa que as coisas infinitas costumam nos trazer, que aproxima-se mais da angústia do que da calma.

Procurando algum norte, olho para o horizonte. Azul e nublado. Inútil. Olho, em seguida, para os meus pés, já andando em zigue-zague, sob a água fria e a espuma límpida da manhã.

Por alguns segundos, ando de olhos fechados. Sentindo apenas a areia e a água sob os meus pés. Quando abro os olhos tudo está melhor. A tonteira passou. Mas quando volto a olhar para a frente, lá está a beira infinita, o horizonte nublado e os pontinhos. Que dessa vez são cor-de-cinza, e nunca mais coloridos.
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