.fragmentos[1].
[sit me down. shut me up. I'll calm down. and I'll get along with you] ..you only live once - the strokes
Escrever às vezes não é suficiente. Palavras, às vezes, deixam a desejar. Às vezes é preciso buscar algo que eu não sei o que é. Essa coisa que nos faz sentir mesmo sem falar nada. Algo muito à flor da pele, intenso. Mas só sente quando se está vivo. Quando se quer fazer sentir. Quando se quer mostrar ao invés de falar. Demonstrar apenas.
Sem palavras, sem artifícios.
E só.
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.cores.do.silêncio.
Depois de um tempo ele parou de esperar. Esqueceu-se mesmo da razão. Ou por quanto tempo esperava - parece que havia sido um dia inteiro. Mas, como uma dormência que lhe atingia pouco a pouco, seu corpo se tornava inerte (quase abandonado) a esperar que alguém ou algo invisível lhe disse alguma coisa. O coração se mantinha num ritmo preciso, sem tanta ansiedade, sem tanto desespero. Talvez aquilo fosse apenas a sua tendência estranha para o lado ruim das coisas. Era quase um talento que consistia em maximizar sensações e tristezas.
Minuto após minuto. Feito um dia que nunca se acaba.
Continuar daquele jeito inerte, inexpressivo, era só mais uma opção. Por um momento, riu-se. Suas possibilidades não eram muitas. Às vezes, só resta a fuga.
Os objetos coloridos à sua volta e o amarelo saturado da cama davam mesmo uma vontade de fugir, quase uma náusea. Mas a verdade era que não podia. Não importava quantos remédios tomasse ou quanto tempo dormisse. Tudo ainda existiria. E ele próprio - e seu corpo inerte - ainda estaria lá.
Então, talvez por razão de alguma melodia ou lembrança, seus olhos começaram a retratar o mundo que lhe envolvia. As tintas e as cores se traçavam na sua lente, aquarelando algo de seus pensamentos sombrios. Nada que fosse tão bonito ou surpreendente. Eram apenas notas dissipadas das cores que ele próprio enxergava. A lente capturava e construía, pouco a pouco, aquilo por ele inventado.
Aos poucos, o dia ia se acabando, desfazendo-se em luz, e todas as cores terminando também. A náusea ainda lhe envolvia, aquela sensação estranha de tristeza escondida pelos cantos. Mas de nada adiantava fugir: o dia terminava, as cores se iam; e sua mente guardava algo de colorido, que viveu e conseguiu guardar.
Nada, naquele mundo só dele. Já é noite. Agora, as cores se foram. Apenas aquele silêncio cortante que, por alguns segundos, foi salpicado por uma voz:
- Caio? É Júlia... È... Desculpa por não ter ligado antes...
O invisível estava cheio de cores . Salpicadas, sutis. A lente não as podia ver. Mas ele as pôde sentir.
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.o.labirinto.
Era o que ela dizia, enquanto andava a passos lentos, os olhos cheios de angústia. Ninguém lhe respondia, e de novo ouvia sua voz, se perdendo pelos cantos.
- Isso é tudo bobagem, um monte de bobagens...
As paredes sem cor continuavam silenciosas. Eram todas muito, muito altas, sem nunca haver fim. O teto, nem mesmo sabia se existia, pois nunca havia tocado e às vezes lhe pareciam como nuvens – pois que eram tão altos. Não sabia se o chão era quente ou frio porque nunca conhecera nenhum outro. Mentira, conhecera sim. Mas isso já fazia tanto tempo que quase não podia se lembrar mais, então era como se nunca houvesse entrado ou saido dali. Como se sempre pertencesse àquele lugar, e se limitasse a existir. Sem um passado ou presente.
- Mas isso é tudo mentira, você sabe. Eu já estive em outro lugar.
Quando pensava em uma coisa engraçada ou boba, ela saía do labirinto. Não de verdade, é claro. Fechava os olhos, cantarolando alguma coisa e de repente não estava ali. Apenas seu corpo encostado no chão frio. E só.
- Lá-lá-lá...
Provavelmente não era preciso dizer, mas é notável que isso não podia durar muito tempo. Quando acabava – as musiquinhas, as coisas bobas e engraçadas – ela tentava adormecer ou voltava a andar. Um passo após o outro, muito cadenciado, cheio de ritmo lento, a sombra acompanhava, e as paredes eram iguais. E todas muito quadradas. Algumas vezes ela caía de tanta angústia. Mas depois adormecia e passava. Dobrava muitas vezes o labirinto e passava o dia vendo os desenhos quadrados (todos tão iguais), das paredes, das quinas, do chão.
Num dia desses de tanto andar, ela cansou. Pôs-se sentada, chorando, o coração apertado até não poder mais. E não tinha nada mais de musica, lá-lá-lá ou coisa engraçada. Então pela primeira vez em tanto tempo – que ela já nem se lembrava mais – desejou sumir do labirinto. Quis isso tanto e tanto, que, por um momento, sentiu seus pés flutuarem; e ela chegou a pensar que poderia voar. Enquanto dizia para si mesma parar com essas tolices, que não adiantaria de nada chorar e que voar não era possível, aquilo aconteceu.
Sim, era verdade.
Uma porta lhe surgiu, muito quadrada e escura, bem à sua frente.
- É uma saída.
E era mesmo. Ela se levantou, os pés cansados de andar, com uma tristeza que lhe doía a cabeça e fazia querer sumir. Pensou, com uma pontinha de alívio – quase felicidade – que não estava presa para sempre.
Livre.
Aproximou-se, com um misto de cautela/desconfiança/alívio do recorte escuro na parede. Chegou muito perto e tentou ver o que a esperava. Olhou e só havia escuridão. Sentiu seus passos puxando-a para trás. Um medo estranho de deixar o labirinto. A incerteza, a escuridão do outro lado. Ela não sabia como conseguir passar. Algo a impedia e, ao mesmo tempo, apertava seu coração.
Os dias passavam e seus olhos ardiam de tanto chorar. Queria sair do meio das paredes brancas, mas não para a escuridão. Era muito difícil, e ela não conseguia.
- Você é mesmo uma tola.
Simplesmente não podia.
Esperou que a angústia passasse. Tentou dormir, para ver se tudo sumia quando ao acordar. Mas não. Era real. Mesmo quando fechava os olhos, continuava lá. Podia sentir o frio, os seus passos vacilantes, o pedaço de escuridão. Desejou que tudo passasse e que não tivesse mais medo. Então sairia dali, de olhos fechados e quando os abrisse, não haveria mais paredes sem cor – nem escuridão. Nada que a fizesse chorar.
Porque – sim, e apenas isso - tudo não teria passado de um terrível pesadelo.
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.flor.na.janela.

Mostro as flores que falei"
[Você pode ir na janela - Gram]
Hoje o quarto está com cheiro de perfume, daqueles que eu uso em dia de festa. Até amarrei o cabelo e pintei a boca de rosa. Às vezes, me sinto sozinha, sabe, mas então lembro que Luci está aqui. Apesar de nunca dizer nada, ela me olha com aqueles olhos de boneca, e eu paro de me sentir sozinha assim. Surge quase uma pontinha de felicidade. Eu não quero te deixar com inveja porque sei de tanta neve e gelo que está por aí, mas vou dizer assim mesmo – você sabe que eu não consigo não dizer as coisas, e mamãe sempre diz que acabo falando demais. Mas é que o dia está todo azul aqui. Comecinho de primavera, gosto tanto, sem frio e sem folhas caindo. Acho que é por isso que vesti hoje aquele meu vestido azul e rodado. Aposto que Luci gosta dele também, mesmo sem dizer nada. Mamãe vive dizendo para eu não conversar mais com Luci, diz que isso é não é bom. Eu não vejo porque, mas também não brigo com ela. Queria ter uma música aqui. Uma não, muitas e muitas. Na verdade eu até tenho mas... dançar sozinha cansa. Tem os gatinhos, mas eles não dançam e mamãe está sempre fazendo qualquer coisa. Sozinha assim. Mas hoje eu prometi uma coisa. Isso é muito importante e sei que vai concordar comigo: prometi que hoje não vou ficar triste. Por nadinha nesse mundo. Então eu só vou te falar das coisas boas e bonitas que deram para acontecer nesses tempos: a gatinha teve sete gatinhos, papai comprou um pé de macieira que daqui vai estar dando muitas maçãs, vovô veio passar um tempo com a gente e – não conta para ninguém – tenho até voltado a brincar um pouquinho com Luci. Ah, e quase esqueci de dizer. Lembra das flores que plantei?
Lindas. Coloriram todo o jardim.
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5
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.quando.natalie.se.foi.
jogou fora suas folhas de papel
as músicas que não ouvia
as roupas que não usava
e a cortina que escondia o sol.
Quando Natalie se foi,
a casa já estava só
já não havia lençóis guardados
nem doces na geladeira
nem café quente de manhã
Quando Natalie se foi,
algo ficou em suspenso
sem malas arrumadas
ou fotos na estante
ou conversas na porta de casa
Ninguém achou Natalie
Nem sabem para onde ela foi
A não ser pelo olhar vazio
Estendido no seu portão
Com o muro todo em vermelho
Seu coração em silêncio
A noite toda distante
A casa toda sozinha
Alguém chorava na sala
Porque Natalie se foi.
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1 comentário[s].insólito[s]
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.me diz.
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.o.homem.de.retalhos.
*Créditos da imagemEra todo feito de retalhos. Uns bonitos, outros feios, outros com um rascunho de qualquer coisa que tenha passado. Retalhos feitos de papel, todos espalhados pelo chão. Diziam que era tudo muito desarrumado- suas paredes, seu quarto, sua sala - mas a verdade era que, e isso era um segredo, ele gostava assim. As folhas se perdiam e misturavam umas às outras, sem que ele nunca pudesse arrumá-las completamente, pô-las em ordem.
Ela pintou as paredes, forrou o chão com tapetes e sorrisos, trocou as cortinas. Trouxe uns livros para pôr na estante e umas caixas para guardar os papéis.Você não pode viver para sempre assim, ela dizia, todo afogado em retalhos, sem nunca poder respirar. Mas ele, todo acostumado com seus rascunhos, não queria deixá-los ir tão distante. Ela chorou quando ele a fez parar de pintar as paredes. Quando deu-lhe de volta os livros da estante e jogou fora as caixas para guardar os papéis. Ele se desfez dos papéis coloridos, dos sorrisos espalhados pelo corredor e das caminhadas em dias de sol. As pessoas passavam do outro lado da rua e diziam como ele era todo feito de rascunhos amassados. Ela não quis mais - nunca mais - comer marshmallows. Seus olhos escuros não eram, agora, tão brilhantes, e não tinha mais o cheiro de margaridas no verão. Isso ele nunca poderia notar, pois tanto se perdeu no seu mundo de rascunhos amassados, histórias em branco e linhas despedaçadas que nunca conseguiria viver com ela, entre as flores.
Era todo feito de retalhos. Uns bonitos, outros feios, mas todos dele e - sim, agora ele sabia - nunca feitos para dias de verão.
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