.lista.de.compras.

domingo, 19 de maio de 2013 às 10:24
lista de compras:

- 1 sapato para dias de chuva
- 1 vinho para dias de angústia
- 1 amor para vida inteira


*comprar tudo para sábado

.o.que.ela.me.disse.

domingo, 12 de maio de 2013 às 12:32
A melancolia chega, se instala e diz que vai ficar para sempre. Ela, muito mais cheia de si do que a tristeza. Ela, a quem você não expulsa. Ela, com quem você vive, alimenta, respira. Ela, que te traz aquele conforto que a alegria não traz. O conforto de não ter de fazer nada. Não ter de se mexer. Não ter de reagir. Só esperando passar.

Ela não te falou, mas não passa.

.sem.título.no.2.

quarta-feira, 8 de maio de 2013 às 19:18
' — Bem, eu quero ir à América do Sul.
— Escute, Robert, tanto faz um país como o outro. Tenho experiência disso. Não podemos sair de dentro de nós mesmos. Não adianta. '
[.ernest.hemingway.]


A felicidade está disposta pelos cantos, escondida em fracos ângulos que, separados, se resumem a nada. Preciso juntá-los, todos esse ângulos, para construir uma casa, uma ponte, um barco, uma folha de papel. Preciso juntá-los porque se não o fizer, ela ficará espalhada para sempre, desperdiçada, inócua, inutilizada. E não posso deixá-la. Deixá-la seria a mesma coisa que desistir do mundo, resumir-me a uma plantinha morta, esquecida debaixo da cama, imóvel. 
Hoje acordei cedo e inquieta, da maneira repentina que se acorda depois das noites de insônia. Procurei por ela embaixo da cama, atrás da mesinha de cabeceira, dentro dos livros, atrás do guarda-roupa, embaixo da minha pequena biblioteca. Esvaziei gavetas cheias de canetas, de papéis velhos, de CDs, de pequenas lembranças, de flores de plástico, de coisinhas de carnaval, de confete, de folhas secas; gavetas cheias de enfeites de cabelo - que não uso mais -, de cartas recebidas, de bilhetes, de réguas coloridas. Esvaziei-as, dispus tudo em cima da cama, e tudo que encontrei foram reminiscências de um passado que me pergunta todo o tempo por que as coisas estão como estão, por que esqueci dele em gavetas entulhadas, por que simplesmente não o deixo ir embora. O que ele não entende - e também não pude dizê-lo - que é ele próprio (o passado) que me consola e me faz manter de pé, lembrando-me de pequenas alegrias.
Ele, naturalmente, me desviou da minha procura. Quanto aos pedacinhos de felicidade, acredito que eles não estão no quarto.  Será preciso sair para procurá-los, talvez estejam escondidos em diversos jardins da cidade, ou em algum lugar bonito, onde ainda não procurei. Quando achá-la por inteiro, deixarei o passado ir embora e os dois - eu e ele - seremos, assim, mais felizes.

.de.um.lugar.qualquer.03.de.maio.de.2013.

sexta-feira, 3 de maio de 2013 às 09:25
"No entanto, para quem leu um pouco e pensou bastante nas noites de insônia, é relativamente fácil dizer qualquer coisa que pareça profunda."
[.clarice.lispector.]

Querida Maria Batata,

está tudo errado de um jeito como nunca esteve antes. Errado de uma maneira calma e quieta, que nunca se exaspera ao maior problema, que encara cada insucesso como algo normal e corriqueiro. Eu sempre respiro, sempre olho para tudo à minha frente com certa racionalidade (você poderia imaginar que seria assim algum dia?), mas o tempo todo não dá.
Escrever cartas é uma forma fácil de fugir das narrativas. De se agarrar fortemente ao narrador, e nunca precisar se afastar dele, de nunca precisar inventar. Te escrever, querida M., é como uma pausa no tempo, é um juntar de palavras suspensas que me tiram deste sufocamento, que seguram o choro. Quando li o seu texto ontem, eu queria tanto te olhar e dizer que é, é comigo assim também, que toda minha vida é um navio. Mas eu não pude e li uma, li duas, li três, e depois veio a insônia, e por muito tempo fiquei pensando em você, em como você está, o que você está fazendo, se tem bebido vinho demasiadamente, se tem escrito ou se permanece num quase escrever, numa preparação, um hiato infinito, como eu.
Aqui também transborda. Transborda dos quadros, do quarda-roupa, dos livros que não leio mais, da tela do computador, da TV que agora fica ligada até muito tarde, das cores da parede, das fotos. Transborda e vejo minha casa se encher lentamente, e só eu vejo, porque, quando acontece, já estão todos dormindo. Eu não tenho botas de chuva. Joguei fora meu barco de papel. O que se faz agora, então?

Com amor e saudade,

Lissa.

p.s.: Lá por semana que vem receberás uma surpresa minha. Espero que gostes.

.falta.

sábado, 23 de março de 2013 às 11:09
Traz-me um pouco dessa paz.
Tira-me esse peso.
Leva-me um pouco o coração.
E vai embora, sem olhar pra trás.
Mas não deixe-me sentir tua falta.
Deixe-me um sorriso doce.
Ou qualquer coisa de céu.
Que preencha o que você levou.

.de.um.lugar.qualquer.20.de.março.de.2013.

quarta-feira, 20 de março de 2013 às 17:04


' Pensei uma coisa curiosa. Faz três dias que não chega nada da distante. Talvez agora não batam nela, ou terá conseguido proteção. Mandar-lhe um telegrama, umas meias ... '
[.cortázar.]



Queria M. Batata,

é difícil dizer se a tempestade passou. Há tanto barulho de TV, e há os carros, os pés cansativos, as pessoas de um lado para o outro, há os livros, os resumos, os artigos, há as aulas, o trabalho e o café, há o cansaço, há as noites curtas, os dias de 12 h, há os filmes que não consigo ver, os contos que me consomem por décadas, há ainda os problemas, os que criei e os que se criaram, há incertezas, há esse terrível paradoxo que se faz entre o sonho e o dia-a-dia. Há tanta coisa, querida, coisa que queria te contar pessoalmente, apenas pra te ver, pra comprar um vinho que aí é tão barato - ainda que fosse suave. Eu, bem como você, não posso dizer que estou triste, que qualquer coisa me consome, que algo ruim e depressivo toma conta de mim. Estou viva e disposta, estou produtiva, estou diferente. Há algo de alegria em mim agora, mas não sei dizer se a chuva passou. Hoje houve um momento curto, que se resumiu há menos de uma hora, que eu tive um daqueles momentos, você sabe quais são, de descontrole. Mas passou, e agora estou bem. Os dias em que faço poucas coisas ou acordo tarde, me sinto mesmo preguiçosa (e sou mesmo). Sinto a necessidade, agora, de produzir, de escrever, de criar qualquer coisa impossível, de dançar e treinar (minhas pernas e coluna reclamam sempre da falta de treino), de trabalhar, de qualquer coisa boa que me consuma. Deixar o barco, M., foi difícil, você sabe que foi. E tenho mesmo sentido a sua falta, e me pergunto por onde é que você anda, se tem visto peixinhos coloridos e se já avistou uma praia bonita para morar. Eu já adianto que não encontrei. Tenho nadado, nadado, e em algumas noites sinto frio, e quero voltar para o barco, porque lá era confortável. Porque, apesar de tudo, havia algo de cômodo naquela tristeza  e em toda aquela tempestade permanente  Mas fico feliz que a gente esteja tentando, ainda que separadas, muito juntas, sem o barco, sem dramas absurdos, sem desculpas desbotadas. Quanto à loucura, Batata, há sempre alguma loucura em escrever, e para mim, é muito mais algo que me segura, que me mantém num eixo - ainda que um eixo duvidoso - e nessas últimas semanas, que quase não tem me sobrado tempo para isso, não escrever tem me enlouquecido. Eu estou cheia de contos inacabados, de problemas não resolvidos e com uma sapatilha velha guardada no armário, que todos os dias, silenciosamente, me pede para ser usada. Mas ainda assim, estou bem, estou sorrindo, sobrevivendo às terríveis segundas-feiras (em que nem o café cobre as tempestades), escrevendo quando posso, trabalhando em muitas coisas diferentes, dormindo 5 horas por dia, lendo livros inacabados, vendo filmes de madrugada. E com periódicas pausas para taças de vinho seco ou um copo de cerveja.

E sim, vamos mesmo nos ver. Logo, logo. :)

Com muita, muita saudade.

Lissa.
p.s.: sempre de lembro de você com 'Distante'. 

.ausência.

segunda-feira, 11 de março de 2013 às 06:14
' Sim, tinha de ser assim, não era possível que isso tivesse acabado para sempre. '
[.cortázar.]


Exite algo de absurdo nessas suas fotos que eu insisto em manter na cabeceira do quarto. Há algumas também na estante de livros, escondendo histórias que eu nunca irei ler. Existe algo de absurdo em eu querer te ligar todas as manhã, exatamente às 06:30 h - porque você já está acordado e ainda em casa. Eu sempre te conto, além do bom-dia, uma coisa outra, uma bobagem que aconteceu, um objeto aleatório que eu comprei, um livro que eu esteja adorando. Você ouve tudo, sempre em silêncio, e quando eu, quase eufórica - a euforia que chega todas as manhãs com a tua saudade -, e quando eu pergunto como que é vão as coisas, você me diz tudo bem, o tudo bem mais distante e vazio, que se renova e me ataca todas as manhãs às 06:30. Eu já pensei em parar de te ligar e ao invés disso te enviar e-mails. Mas acontece que os e-mails seriam exatamente como as ligações, e o pior se definiria: os seus tudo bens seria ainda mais duros e frios como pedras, eles poderiam se escassear, até o ponto de você não responder mais meus e-mails, de você não se importar com qualquer palavra que eu te mandasse. Então eu continuo te ligando, escutando a sua voz grossa de manhã, a mesma voz que me dava bom-dia e um beijo de rotina e que me dizia que ficaria aqui pra sempre. Enquanto eu me perco nos dias quentes, e me canso com o trânsito, com o café ruim e com pessoas insuportáveis no trabalho, eu penso em você todo o tempo. Todo o tempo, neste caso, definitivamente não é força de expressão. Eu gostaria que fosse, mas acabo pensando em você quando almoço - eu adoro seu ovo mexido -, quando estou na rua - pensando que a qualquer momento posso receber uma ligação tua, pra dizer que me ama -, quando durmo - você que sempre me fez carinho no pé pra dormir. Algumas noites, eu escuto "Hey" repetidamente, repetidamente, ainda que eu saiba que é uma música destruidora, com seus gemidos indecentes e com aquela guitarra que me parte ao meio. Eu o faço até cair no sono. Ou deito no sofá da sala e fico vendo a hora passar - naquele relógio bonito que você comprou numa feira de antiguidades. A hora não passa e eu me pergunto como está sua vida, o que está implícito neste tudo bem que todos os dias não me diz nada, quem são seus amigos agora, como está o trabalho, a faculdade, sua alimentação - será que você ainda vive de ovos e comida congelada? -, com quem você se deita, quem te faz companhia nos dias de chuva. Eu me pergunto tudo isso e imagino coisas absurdas, um André que na verdade não existe, que tem várias vidas, várias versões, várias felicidades e tristezas implícitas no tudo bem. E me pergunto, sempre, se você já me esqueceu, se ainda lembra de quando, todas as manhãs, exatamente às 06:30 h, você se levantava antes de mim e fazia café. Algumas vezes eu estava acordada, mas fingia dormir, pois gostava do som de você na cozinha, fazendo aquele café que só você sabe fazer, e me chamando depois, com torradas e um meu amor no final da frase. Eu estou pensando em me contentar com os e-mails, e começar a esquecer essa voz fria e grossa pela manhã, que sempre me deu bom-dia, mas que agora só responde minhas frases de maneira mecânica e distante. Acho que vou começar com eles hoje, pela noite, porque assim você vai poder lê-los pela manhã e ver um bom-dia meu, mesmo que você não responda, mesmo que aquilo não signifique quase nada. E assim você não se sentirá tão sozinho, pois eu sei que é assim que você tem se sentido desde quando você partiu há dois dias. Você não vai ouvir mais meus bons dias, minha insistência, minhas bobagens que sempre foram pra dizer que há dois dias sempre sobra uma xícara na cozinha, um espaço grande do lado esquerdo da cama, comida congelada comprada pra dois. E que há dois dias sua ausência tem sido terrivelmente perturbadora.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...