.palavras.

sexta-feira, 25 de maio de 2012 às 23:05








As palavras chegaram cansadas e vastas
E chegaram bêbadas chegaram castas
De tanto querer e tanto amar
E quiseram morrer de tanto chorar
Me pediram perdão por tanto sofrer
Disseram-me algo maior que o dizer
Chegaram tarde e sem ar
E
vieram
curtas
sem
tanto
gritar
De
frases
tão
loucas
e
tão
claras
Me
fizeram
quieta
me
fizeram
                                        la(r).

.flores.esverdeadas.

domingo, 20 de maio de 2012 às 19:27




' Eu sei que o sonho era bom 
Porque ela sorria '[.chico.]

[.notorious.]

As horas passam, e eu assim meio tonta esperando que o dia acabe. Hoje não vi céu nem janela, apenas o gosto acinzentado que fica depois de partires. Os lençóis ainda têm seu cheiro, mas há tanto tempo não escrevo (você sabe) - essas palavras soltas não se podem chamar escrever - que não sei bem como dizer que sonhei com flores azuis amarelas lilases e verdes na janela da frente. Foi bom e bonito, feito palavras de Cecília Meireles, e havia doces e sol, havia nossas mãos dadas, parque verde, chocolate com morango, havia pássaros azuis, cheiro de cereja, havia teu perfume, haviam balões coloridos e uma música rósea que acalmava os corações. Havia uma felicidade leve e tímida, dessas que sentem-se em calmarias.

E ela fazia-me sorrir, adormecida em teus braços.

.veludo.azul.

sábado, 12 de maio de 2012 às 19:12

' But the people they don't understand
No, girlfriends, they can't understand
Your grandsons, they won't understand
On top of this I ain't ever gonna understand '
[.the.strokes.]



[.blue.velvet.]

Andava temeroso de que qualquer coisa se desfizesse pelo meio do caminho. Caminhava a passos lentos. Perdia-se lendo as linhas embaraçadas e as fotos meio rasgadas. Sua cabeça pendia de infelicidade. Aquela infelicidade gasta e pura, que atormenta até mesmo os corações mais ditosos. Achava que o mundo era feito de giz. As pessoas, agora, já quase não o olhavam, e conversar tornara-se um evento raro. Mas é que toda essa festa, esses gritos, essa necessidade não sabia de quê, essas luzes brilhantes, esse cheiro de álcool que ronda o ar, essas cores borbulhantes - tudo isso o enfastiava. Tudo isso resumia-se a nada. Vazio e claro. Algumas vezes tentava ir a lugares movimentados, com chafariz e crianças correndo. Mas logo não suportava a luz do sol e algodão-doce. Sentia olhares temerosos voltados para si. Sua áurea era de desespero. Lembrou de um tempo em que era como todas as pessoas, como todas as pessoas são problemáticas e falsamente felizes. Agora ele é apenas um corpo errante, que não se resume à infelicidade ou loucura, afastado de todo esse festim, um corpo errante que se resume a quase nada.

.de.um.lugar.qualquer.01.de.maio.de.2012

terça-feira, 1 de maio de 2012 às 18:04


'Mas tudo bem,
o dia vai raiar
pra gente se inventar de novo'
[.cícero.]




[.the.secret.life.of.bees.]



Querida M. Batata,


você precisa me perdoar por todos esses dias que tenho passado sem te escrever. Hoje eu acordei calma, e disseram-me que meu rosto não estava pesado como de costume. Parece que o estresse e as brigas e as incertezas e o vazio, tudo isso me traz um certo peso - não que seja grande demais - que não sei carregar. Eu quero que os dias continuem frios - hoje aqui está fazendo 17 graus - e quero continuar calma. O final de semana teve uma tempestade terrível e nenhuma única palavra saiu de meus dedos. A semana, para mim, só começa amanhã e como ela será curta. Tenho medo de que o amanhã chegue. Não se sabe o que vem com ele... Tenho medo de qualquer coisa que eu não possa suportar. Com as chuvas, já me acostumei. Mas não sei o que existem além delas. Isso me assusta. O nosso barco de papel - você ainda lembra dele? - parece estar estático e indeciso, um pouco à mercê das ondas, esperando que algo de felicidade nos leve até a praia. Tenho medo de que as folhas não caiam e de que outono não chegue. Ele que traz uma certeza frágil e delicada, que não é volúvel como pingos d'água.

Com amor,


Lissa.

.antes.do.meio-dia.

segunda-feira, 16 de abril de 2012 às 19:15

' “Ah”, disse o rato, “o mundo torna-se a cada dia mais estreito. À principio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.” – “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.'[.kafka.]   
[.the.lost.weekend.]


Hoje o dia amanheceu claro e vasto, como de costume.  Na vitrola, tocava aquela banda de rock antiga, que você tanto gostava. O meus pés ainda doem da noite de ontem, mas estão refrescados da água do mar. Você sabe, eu queria que tudo houvesse sido diferente, que os dias passassem brilhantes e frescos como as nossas estrelas do meio-dia. Mas nada é fácil, e não me canso de repetir isso, como a minha auto-piedade pudesse consertar qualquer coisa. Eu separei algumas páginas para ler esta tarde, assim quando o sol já estiver para ir embora, mas pode ser que eu não as leia, pois Cortázar enche de chuva meu coração. Você lembra daquele texto do moço que vaga pelas ruas de Paris, pelas galerias? ah, como queria ir contigo às galerias. Porém, acaberei me contentando em andar descalça na grama fresca e ficar lá por uma, duas, três horas. Já não tenho ânimo para torradas com geleia, suco de laranja e torta de maçã. O silêncio que o céu traz tem me bastado. Por que é que foi mesmo que começamos a viver, querido? Eu já mal me lembro dos meus sonhos, das minhas qualidades - tão vagas e curtas agora -, no fundo não tenho nenhum adjetivo completo. Acho que consegui alcançar aquilo que os outros chamam fracasso. O vento fresco, as goteiras no corredor quando chove, as tardes sozinha, isso me comove. Já não almejo nada mais que venha me fazer conhecedora do mundo, nem ele de mim. Ontem, foi como um vislumbre daquelas nossas velhas ideias. Você me levou pela mão, e me embriagou de vinho, enquanto ria alto, e pensei que nós ainda éramos jovens e cheios de ideias. Espero que você tenha conseguido acordar e que em breve me mande logo o primeiro capítulo do seu livro. Talvez amanhã nós acordemos e possamos respirar em paz. E talvez você me escreva uma carta falando de felicidade e algodão-doce. Enquanto penso que tudo isso é verdade, lá fora já é quase meio-dia. Tenho que alimentar os gatos e assistir à novela da tarde. Ainda há esperança, querido. Porém, não mais para nós.

.gotas.

quarta-feira, 11 de abril de 2012 às 18:18
'riders on the storm'
[.the.doors.]
[.singing.in.the.rain.]


Eu estou com tantas saudades que nem sei direito me conter, e por vezes chego pensar em ti por minutos seguidos, ou por uma hora, você sabe como é difícil me concentrar, como todo esse mundo é louco e inconsistente. Hoje eu estava deitava no sofá da vovó - aquele florido com jeito de velho - e eu lembrei que era uma das quartas-feiras de correspondência, e o carteiro tinha passado bem perto daquela hora. Eu li aquela sua carta azul e engraçada, com desenhos de flores e arco-íris, e pensei em você sorrindo, porque imagino que você quase nunca sorri. Hoje eu fechei os olhos e sonhei com tempestade e vento, e era tanta água e tanta neve que eu nem pude respirar, e vi você numa janela, calma e intacta, esperando que o frio trouxesse qualquer coisa de bom. Eu já disse que estou com saudades, mas preciso dizer de novo, porque de repente assim ela passa um pouquinho de tanto ser escrita até minha mão doer. Então eu posso escrever aqui saudade saudade saudade saudade infinitamente, até que eu me canse, até acabar a semana e tudo que me reste fazer seja me acostumar.

.ainda.que.amanheça.o.dia.

sexta-feira, 30 de março de 2012 às 18:46
'De noite não é tanto, a fadiga e o silêncio nos ajudam [...] e às vezes dormimos até o amanhecer e nos desperta um esperançado sentimento de alívio.'
[.cortázar.]

[.the.dreamers.]


As janelas estavam abertas numa monotonia que parecia ser de um domingo, mas na verdade ainda era terça-feira à tarde, e as flores estavam dispostas em tons injustificáveis. As galerias de vidro refletiam o céu branco e casto de outono, com suas folhas amareladas e os sorrisos gastos das vitrines. A estação trazia consigo algo de leve e terrível, que invade as segundas, terças, quartas, quintas e domingos à tarde - porque a sexta e o sábado estão sempre repletos de certa divindade, como que suspensos no tempo - e os dias se tornavam iguais e claros, como todos os outros dias de outono, avançando lentamente até que o relógio marque 23:59. A noite também era monótona, mas ainda que as cortinas se abrissem, não haveria cor nem riso, apenas um silêncio cortante que coloria de vermelho um céu quase chuvoso. A manhã - talvez de terça ou quarta -, com seu café, seu açúcar, o vento que oscila nas primeiras horas, as pausas ao andar e a incerteza do dia, abria o céu em tons estourados de cinza e branco que perpassa as árvores, os olhos, as conversas, as galerias, as folhas amareladas e as flores que morrem.
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