domingo, 29 de junho de 2014

.remetente.anônimo.

Joanna dizia: “me diga que horas são, querida, me diga antes que seja tarde, que seja muito longe, me tire deste tédio, deste inferno particular no qual me encontro, me tire, querida, e me diga como se regam as flores nas tardes terrivelmente quentes de janeiro, me diga como não deixá- las morrer, me diga como contar as horas que passam correndo à minha frente, deixando apenas fumaça e suor, deixando a saudade, a nostalgia líquida, aquela que não posso reter”.

Joanna dizia e olhava as margaridas, repetindo silenciosamente, esperando que as palavras fizessem qualquer coisa além dela mesma. As cartas chegavam entre segunda e quarta, sempre pela manhã, mas ela só as via pelo meio-dia, pois acordava sempre às dez. Os papéis permaneciam vazios, longínquos de uma frieza que só se via quando se pegava neles. Tão duros e castos. Não escrevia uma palavra há uma semana - nem mesmo respostas às cartas que se acumulavam na mesa-de-cabeceira - e esperava que elas fossem vir, como sempre vieram, numa espontaneidade suave que a entretia por horas e horas.

As cartas que chegavam de Luisa permaneciam tristes, e traziam sempre uma angústia de não estar lá, de que Joanna nunca poderia ajudar em nada. De certa maneira, as duas se bastavam como irmãs que pouco se viam e se encontravam entre o silêncio das repostas, o não-dizer da tristeza e a saudade de pouco se verem. Luisa dissse, na última carta - que Joanna viu por volta das 11:30 - que as palavras viriam logo, elas sempre vêm, e se não viessem, que deixasse o livro para lá.

Jean dizia que Joanna devia relaxar e ler um livro - ler livro é sempre coisa boa para escritor - ler Clarice, de repente, Flaubert. As palavras virão, ele dizia, mas você não pode pensar nelas. É preciso deixar que venham por conta própria. E ler livro sempre ajuda.

Mas Jean não sabia nada sobre arte. Trabalhava no escritório e era um agente barato, que não custava muito à Joanna. Joanna o escutava, pensava e deixava as palavras de Jean escorrerem lentamente, enfileiradas, pela persiana entreaberta do escritório.

Carlos estava parado havia um mês, sem sair da frase: “Então deixou seu copo de uísque demasiadamente cheio na mesinha da sala, e deitou-se até o sol surgir”. Um mês sem história é coisa demais, Joanna. Coisa demais para mim e para ele, personagem sem graça, mas o único que tenho. Coisa demais para a editora que esperava o livro de Joanna pacientemente, tic tac, o livro que não existia.

Jean achava Carlos muitíssimo frívolo. Um homem sem grandes ambições, sem grandes histórias, sem um grande plot. Livro bom era livro com um plot daqueles. Como o último de Joanna. Desse ele gostava. Era bom mesmo. Sucesso de vendas. Joanna tinha que escrever outro daquele. Tão bom quanto. Não, não. Melhor. Isso, melhor. Um livro com violência, sexo e paixão. Dos bons. O que você escreveu Joanna? Joanna leu a frase para ele: “Então deixou seu copo de uísque demasiadamente cheio na mesinha da sala, e deitou-se até o sol surgir”. Eu gostei, disse Jean, essa coisa de “até o sol surgir” é bem solene. Bom, eu gostei. E o que mais? Não tem o que mais, Jean, não tem.

Jean respirou profundamente, levantou-se da cadeira e foi pegar um copo de café, para relaxar, perguntou se Joanna queria, e como ela dissesse que não, disse que a veria sem falta na próxima quarta, e queria era ver
material novo, material dos bons, porque a editora já estava começando a ligar.

***

A manhã era tardia e os olhos azuis de Carlos se espalhavam sobre ela. O cheiro forte e amargo, do cigarro, ele fumava sempre antes do café. O primeiro cigarro é sempre o melhor do dia, ele dizia. A fumaça difusa nebulava seus olhos entreabertos e a figura de Carlos que sorria, de uma delicadeza que apenas os pais tinham ao olhar seus filhos meio adormecidos. Desde criança ela não era olhada naquela maneira. Vendo-o ali, sentado à cama, respondia o “bom-dia” daqueles olhos brilhantes, que eram sempre mais claros pela manhã.

Gostava da espontaneidade com a qual ele havia surgido. Foi um dia de repente, e ela o encontrara sentado na mesa da sala, ele perguntou se não havia vinho e disse que odiava o uísque que ela dava a ele a cada linha nova do livro. Nervosa, ela foi até a cozinha, encheu duas taças de vinho, tomou uma aspirina e voltou à sala. Teve a impressão súbita de que se conheciam a meses. Chamou-o para ficar.

Desde então, evitava mostrar a Carlos que não terminaria o livro. Desconfiava, secretamente, de que ele sabia, mas também preferia não tocar no assunto. Enquanto passavam as horas, Carlos e Joanna viviam um pouco como irmãos. As tardes eram salpicadas de jazz e cigarro, de vinho barato, bombons de cereja e poesia. Pela primeira vez, em tanto tempo, ela não estava sozinha, afundada em cobertores ou presa à máquina de escrever. Os dias eram vivos e claros, e mesmos nos dias frios havia fondue e lareira. Carlos vivia de uma maneira que sequer parecia uma criação dela. Ele era tão doce e gentil que ela nunca poderia imginar ninguém assim, com o coração tão fundo e
com gestos sutis que empenhavam-se em cantarolar pequenos versos de sonetos, escolher discos e gesticular com o cigarro na mão direita, enquanto a esquerda segura uma taça de vinho. Por ser tão magro e alto, olhava Joanna de cima com extrema doçura, e segurava seu queixo ao dizer o quanto ela estava radiante todos os dias.

E ela, como respostas a seus gestos, dedicava todo o seu tempo a ele. Já não atendia mais Jean e as cartas de Luisa, estas não recebia há algum tempo. Parou de escrever, mas isso não parecia influenciar na existência de Carlos de maneira nenhuma. Agora, ele já existia além dela, e começava a achar, como uma pequena angústia desesperada, que ela mesma já dependia dele para viver.

Foi por isso que a carta caiu como um trovão sobre sua cabeça. Carlos havia saído desde a hora do almoço e não voltava ainda. Enquanto escolhia um disco, ouviu, na sala silenciosa, um farfalhar de folhas que foram jogadas sob a porta da frente. Abriu a porta e não viu ninguém, apenas suas margaridas e a grama verde que regara no dia anterior.

Abriu a carta e tudo que achou foram letras pequenas e irreconhecíveis, que destruíram sua vida de uma só vez. Mas seria possível? Seria Carlos capaz? Chorosa, foi até a gaveta do quarto e pegou o vidrinho para casos extremos. Serviu-se de um copo de vinho, escolheu um disco, deitou no sofá da sala, releu a carta e chorou novamente, até o fim da tarde.

Quando Carlos a encontrou adormecida no sofá da sala, “A fool for you” tocava na vitrola. Tentou andar lentamente, para que ela não acordasse e não notasse que ele se aproximava. Ele havia comprado os deliciosos bombons de cereja, que Joanna sempre comia como uma criança. Seus pés apoiavam-se no braço do sofá. Carlos ia acordá-la mas uma taça de vinho estava quebrada no carpete vermelho e os braços de Joanna dependurando-se do sofá, pareciam brilhar
àquela hora da tarde. Joanna vestia o vestido azul que Carlos gostava, e seu rosto, terrivelmente calmo, parecia não sentir nada. Ele deixou caixa de bombons enlaçada na mesa de centro e sentou no sofá e pôs os braços de Joanna, já frios, em cima do sofá e abraçou-a como nunca mais a fosse ver de novo. Seus olhos choravam inconscientemente. O vidro de veneno já estava vazio em baixo da mesa, e por entre os cacos do copo de vidro, havia uma carta borrada, que Carlos leu com raiva e deixou no carpete molhado.

***

Não existiu noite que não perpassou Joanna. Não existiu estrela que surgisse sobre seu teto e não deixasse algum resto apagado sob a mesa de jantar. Os restos caminhavam até seu quarto, pelas primeiras horas da manhã, e se instalavam sob a sua escrivaninha e por entre as teclas da máquina de escrever. Algumas vezes, se arrastavam até seus travesseiros e se instalavam em sua cabeça e seu coração, e quando Joanna escrevia Carlos, o seu ser já estava todo infestado desses restos de estrelas. Elas sempre chegavam até Carlos pois era até ele que sempre queriam chegar , chegavam e iluminavam as noites dele, tão foscas de fevereiro. E mais pareciam luzes apagadas, fugidias de si mesmas. Foram estes restos luminosos, ainda, que fizeram Carlos começar a beber, entregar-se ao uísque todas as noites, pois elas nunca se iam realmente, mesmo quando era dia.

Porém, foram as mesmas doses de uísque que fizeram Carlos entregar-se à máquina de escrever, escrevendo demasiadamente, dia e noite, dando um fim ao livro que Joanna não terminou.

Volta e meia, ele perguntava-se se era o que ela realmente gostaria, ver aquele livro pronto, que apesar de

ter apenas duas páginas quando ele pegou para continuar, sempre fora muito mais dela do que dele. Resolveu chamá-lo “A luz que vem dos teus olhos” e arranjou um agente.

Mesmo agora, depois de ter terminado o livro e ter vendido muitas cópias, em alguns dias, quando chega uma carta nova de Luisa sempre reclamando que Joanna não a responde mais, Carlos ainda contém as lágrimas de achar que sua própria vida não passa de um engano, de um terrível acaso do destino, de uma infeliz história mal contada. 

terça-feira, 17 de junho de 2014

.aqueles.pontinhos.brilhantes.

“As grandes revelações da natureza sempre impressionam e eu não estava de todo desacostumado a ter aquele tipo de sensação. As montanhas oprimem, os oceanos aterrorizam, o mistério das grandes florestas tem um efeito peculiar sobre cada um de nós. Mas todos esses sentimentos estão ligados, de uma forma ou de outra, à experiência humana, à própria vida.”

[.algernon.blackwood.]

- Olha pro céu. O que você vê?

Era uma daquelas tardes frescas de primavera. O céu estava de um azul límpido e impecável, sem nenhuma nuvem sequer. Nenhum pássaro. Nenhum ser alado. Os dragões e as fadas deviam dormir, porque nenhum voava naquele dia ensolarado. Com exceção de nós dois.

Nesse tempo, nossas horas eram muito para conversas existenciais, um pouco para livros e quase nada para a escravidão pós-moderna. Para tais conversas e eventuais silêncios, costumávamos voar até algum lugar extenso e sossegado. Se bem me lembro, estávamos no campo de dentes-de-leão. O lugar preferido de Ludovick, à época.

Como eu não respondesse, Ludovick retomou:

- O que você vê no céu? - olhando-me.

- Pontinhos multicoloridos. Milhares de pontinhos coloridos... E saltitantes. - eu respondi, enquanto estudava o céu atentamente.

- Pontinhos? – ele parecia surpreso.

- Sim. Como uma TV com defeito.

Agora ele voltou voltou-se para o céu, como a procurar os tais pontinhos, e disse:

- Engraçado.

- Por que engraçado? – eu perguntei, quase contrariada, olhando diretamente para ele.

E ele ainda olhando o céu. Tinha as sobrancelhas semicerradas. Com o ar analítico de sempre, respondeu: 

- A maioria das pessoas vê formas. Elefantes, corações, formas de todos os tipos e tamanhos variados.

- Mas que pessoas...?

- Ah Phexias... As pessoas, ora.

- Ah, sim.

- Isso deve dizer algo sobre você.

- O que?

- O fato de você ver pontos saltitantes num céu limpo... Isso deve dizer alguma coisa sobre você. Só não sei o que.
Por muito anos, refleti sobre as palavras de Ludovick e sobre o que aqueles pontinhos diziam sobre mim. Evidentemente, nunca deixei de vê-los. E a cada céu límpido eu os vejo, saltitantes, intrépidos, coloridos.
Há duas semanas descobri a causa dos tais pontinhos. Labirintite. Somado a outros - muito mais terríveis - sintomas: tonteira, desequilíbrio, falta de norte, manchas cinzas que invadem meus olhos pelos cantos, entre outros que não valem a pena a extensão do parágrafo.
Hoje andei à beira do mar. Coisa que gosto muito e há tempos não fazia. Entrevia-se uns pedaços de céu azul. Mas estava essencialmente nublado. A praia estava vazia, o mar revolto e as nuvens carregadas. Ainda assim, ainda que o céu estivesse repleto de nuvens, eu via meus pontinhos saltitantes. Multicoloridos, mas dessa vez em gray scale - mais assemelhados, agora, a uma TV com defeito.

Foi um pouco perturbador andar à beira do mar com eles pulando à minha frente, sobre mim, dentro das nuvens, por todo o  horizonte.

Eu olhava, quase todo o tempo, para a frente. Havia a praia, infinita. O desenho da beira que se prolongava até que eu me perdesse. Aquela infinitude me tonteava. Os pontinhos do céu só pioravam a tonteira, me chamando sempre a alcançá-los. Distantes. Foi quando notei o que eles diziam sobre mim. Ainda que seja mais labirintite do que poesia, eles fazem-me sempre seguir intermitentemente adiante, tentando alcançá-los. Mas sem nunca parar de seguir em frente.

Talvez por isso eu sempre gostara dos campos abertos, das alturas estonteantes, das estrelas inalcançáveis. Mesmo apavorada por essas paisagens, preciso delas para dimensionar a imensidão do mundo e de como ele me perde. Esta sensação difusa que as coisas infinitas costumam nos trazer, que aproxima-se mais da angústia do que da calma.

Procurando algum norte, olho para o horizonte. Azul e nublado. Inútil. Olho, em seguida, para os meus pés, já andando em zigue-zague, sob a água fria e a espuma límpida da manhã.

Por alguns segundos, ando de olhos fechados. Sentindo apenas a areia e a água sob os meus pés. Quando abro os olhos tudo está melhor. A tonteira passou. Mas quando volto a olhar para a frente, lá está a beira infinita, o horizonte nublado e os pontinhos. Que dessa vez são cor-de-cinza, e nunca mais coloridos.

domingo, 1 de junho de 2014

.de.um.lugar.qualquer.01.de.junho.de.2013.

Querida M. Batata,

aqui no Rio parece que esfriou. São os primeiros sinais do inverno, que costumam vir desavisados, geralmente no meio da primavera ou em dias indecisos de outono. Mas agora os dias estão mais sombrios.  Estamos às portas do inverno. Há o caos. Eu já te escrevi dizendo como as coisas estão por aqui. O clima de insegurança, revolta e violência. Um certo ranger de dentes e uma insatisfação geral. Não sabemos mais se conseguiremos trabalhar ou estudar daqui há uma semana, daqui há quatro dias. Os ônibus param, os professores param, as coisas param. As pessoas têm medo e raiva. Aparentemente, ninguém quer copa. O governo está preocupado. As pessoas também.
Naturalmente, ando estressada com tudo isso. Todos andam. Talvez seja uma consciência política emergindo. Talvez. Meu lado otimista realmente espera que sim.

Somado a isso, o vazio rotineiro, preenchido com trabalho, que você já sabe bem como é. Eu tenho tomado chá. De morango. Tem ajudado. Meu estômago já quase não aguenta beber café. O estresse, os dias de 30 horas e os antibióticos têm-no consumido. Bebo café, apenas e religiosamente, nas tardes de terça-feira. 
Não tenho escrito. Ontem, comprei uma rosa. Foi bom. Uma rosa é sempre mais reconfortante do que uma folha de papel em branco. 

Acho que hoje vou escrever. Acho que vai ter chá de morango. Acho também que vai ter chuva. Venta suavemente nas cortinas floridas. Eu gosto desse tempo, é tão fresco e calmo. 

Em todo lugar há cheiro de tempestade. No meu quarto também.

Com muito amor e saudade,

Lissa.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

.de.um.lugar.qualquer.02.de.julho.de.2013.

Querida Maria Batata,

acontece que hoje choveu. Talvez seja por isso que eu te escreva. Gosto de te escrever quando chove porque a chuva traz algo de você. Será fácil de entender? Nós somos chuvosas, sabe? Chovemos tanto que chega um ponto que já não cabemos mais. Então esvaziamos e chovemos novamente e é assim que foi (e é) ao cabo destes 21 anos (já quase 21 para você também).
Eu andei pensando na tua última carta, e me veio um pensamento estranho de que talvez você esteja realmente certa e não haja nada para ser consertado. Sabe, querida, eu passo tanto tempo tentando não gastar as horas, consertar as coisas, refazer o que não há conserto, recomeçar, começar coisas, sempre em busca de uma vida certa, equilibrada. Mas não adianta. Não é algo exatamente a ver com felicidade. Noto que cada vez que conserto coisas, mais coisas existem para serem consertadas. É como um ciclo.
Estou tentando parar de consertar e começar a viver. Apesar da chuva que não passa. Dos barcos desmanchados. Das dores nas costas. Dos problemas. Do fundo do poço. Do pessimismo barato. Dos nossos e-mails escassos. Do inconsertável. Do cansaço. Das olheiras. Da enxaqueca. Apesar.
Apesar, eu tenho que feito o que gosto é o que me sustenta - o que nos sustenta? -, e é tudo que tenho.

Quanto à loucura, M., tenho tentando não pensar.

Com muita, muita saudade.

Lissa.

p.s.: as palavras nunca se acabam, querida. às vezes o vazio aumenta demais, sem deixar espaço. passa e volta. mas passa.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

.de.um.lugar.qualquer.03.de.maio.de.2013.

"No entanto, para quem leu um pouco e pensou bastante nas noites de insônia, é relativamente fácil dizer qualquer coisa que pareça profunda."
[.clarice.lispector.]

Querida Maria Batata,

está tudo errado de um jeito como nunca esteve antes. Errado de uma maneira calma e quieta, que nunca se exaspera ao maior problema, que encara cada insucesso como algo normal e corriqueiro. Eu sempre respiro, sempre olho para tudo à minha frente com certa racionalidade (você poderia imaginar que seria assim algum dia?), mas o tempo todo não dá.
Escrever cartas é uma forma fácil de fugir das narrativas. De se agarrar fortemente ao narrador, e nunca precisar se afastar dele, de nunca precisar inventar. Te escrever, querida M., é como uma pausa no tempo, é um juntar de palavras suspensas que me tiram deste sufocamento, que seguram o choro. Quando li o seu texto ontem, eu queria tanto te olhar e dizer que é, é comigo assim também, que toda minha vida é um navio. Mas eu não pude e li uma, li duas, li três, e depois veio a insônia, e por muito tempo fiquei pensando em você, em como você está, o que você está fazendo, se tem bebido vinho demasiadamente, se tem escrito ou se permanece num quase escrever, numa preparação, um hiato infinito, como eu.
Aqui também transborda. Transborda dos quadros, do quarda-roupa, dos livros que não leio mais, da tela do computador, da TV que agora fica ligada até muito tarde, das cores da parede, das fotos. Transborda e vejo minha casa se encher lentamente, e só eu vejo, porque, quando acontece, já estão todos dormindo. Eu não tenho botas de chuva. Joguei fora meu barco de papel. O que se faz agora, então?

Com amor e saudade,

Lissa.

p.s.: Lá por semana que vem receberás uma surpresa minha. Espero que gostes.

quarta-feira, 20 de março de 2013

.de.um.lugar.qualquer.20.de.março.de.2013.



' Pensei uma coisa curiosa. Faz três dias que não chega nada da distante. Talvez agora não batam nela, ou terá conseguido proteção. Mandar-lhe um telegrama, umas meias ... '
[.cortázar.]



Queria M. Batata,

é difícil dizer se a tempestade passou. Há tanto barulho de TV, e há os carros, os pés cansativos, as pessoas de um lado para o outro, há os livros, os resumos, os artigos, há as aulas, o trabalho e o café, há o cansaço, há as noites curtas, os dias de 12 h, há os filmes que não consigo ver, os contos que me consomem por décadas, há ainda os problemas, os que criei e os que se criaram, há incertezas, há esse terrível paradoxo que se faz entre o sonho e o dia-a-dia. Há tanta coisa, querida, coisa que queria te contar pessoalmente, apenas pra te ver, pra comprar um vinho que aí é tão barato - ainda que fosse suave. Eu, bem como você, não posso dizer que estou triste, que qualquer coisa me consome, que algo ruim e depressivo toma conta de mim. Estou viva e disposta, estou produtiva, estou diferente. Há algo de alegria em mim agora, mas não sei dizer se a chuva passou. Hoje houve um momento curto, que se resumiu há menos de uma hora, que eu tive um daqueles momentos, você sabe quais são, de descontrole. Mas passou, e agora estou bem. Os dias em que faço poucas coisas ou acordo tarde, me sinto mesmo preguiçosa (e sou mesmo). Sinto a necessidade, agora, de produzir, de escrever, de criar qualquer coisa impossível, de dançar e treinar (minhas pernas e coluna reclamam sempre da falta de treino), de trabalhar, de qualquer coisa boa que me consuma. Deixar o barco, M., foi difícil, você sabe que foi. E tenho mesmo sentido a sua falta, e me pergunto por onde é que você anda, se tem visto peixinhos coloridos e se já avistou uma praia bonita para morar. Eu já adianto que não encontrei. Tenho nadado, nadado, e em algumas noites sinto frio, e quero voltar para o barco, porque lá era confortável. Porque, apesar de tudo, havia algo de cômodo naquela tristeza  e em toda aquela tempestade permanente  Mas fico feliz que a gente esteja tentando, ainda que separadas, muito juntas, sem o barco, sem dramas absurdos, sem desculpas desbotadas. Quanto à loucura, Batata, há sempre alguma loucura em escrever, e para mim, é muito mais algo que me segura, que me mantém num eixo - ainda que um eixo duvidoso - e nessas últimas semanas, que quase não tem me sobrado tempo para isso, não escrever tem me enlouquecido. Eu estou cheia de contos inacabados, de problemas não resolvidos e com uma sapatilha velha guardada no armário, que todos os dias, silenciosamente, me pede para ser usada. Mas ainda assim, estou bem, estou sorrindo, sobrevivendo às terríveis segundas-feiras (em que nem o café cobre as tempestades), escrevendo quando posso, trabalhando em muitas coisas diferentes, dormindo 5 horas por dia, lendo livros inacabados, vendo filmes de madrugada. E com periódicas pausas para taças de vinho seco ou um copo de cerveja.

E sim, vamos mesmo nos ver. Logo, logo. :)

Com muita, muita saudade.

Lissa.
p.s.: sempre de lembro de você com 'Distante'. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

.de.um.lugar.qualquer.29.de.janeiro.2013.



http://simplescomplexibilidade.blogspot.com.br/2013/01/barbas-tortas-25-de-janeiro-de-2013.html



Querida M. Batata,

Desculpa a demora. De alguma eu também deixo pra depois. Pra amanhã. O seu presente? Ainda não postei. Mas não importa, será um presente de carnaval, bem como eu te disse que acabaria sendo.
Eu fico feliz por teu avô. Fico feliz por essa tempestade ter se dissipado dentro de ti, de ter até um pouco de sol - ainda que você não tenha dito. Eu queria ser como você e poder comprar bom vinho sempre. Sempre e sempre. Mas acontece que aqui os vinhos bons são caros. Eu estou com um quase pelo fim, na geladeira. Não é um bom lugar para um vinho como aquele. Seco. Meu pai disse: 'esse vinho não se bebe gelado, filha'. Mas eu gosto de beber vinho gelado. Porque aqui faz muito calor. Porque ele esfria as noites e as quase manhãs em que a angústia queima. Como qualquer coisa de consolador. E é isso querida, o que o vinho não resolve? Se ele não resolve e porque simplesmente nada mais poderá resolver. E ponto. Eu demorei tanto para responder, que, em alguns dias, achei que tinha desaprendido a escrever cartas. Mas parece que não - e essa será a única coisa que nunca irei desaprender. Imagine você que hoje fui em lugar maravilhoso que abriu aqui, uma livraria construída num cinema antiga, que tem cinco andares, que tem todos os livros, que tem um café, que tem um esquilo gigante e almofadas de fruta na parte infantil, que tem livros sobre a Clarice que nunca vi na vida (eu não tive muito tempo de ver os livros de Cortázar, de Eco, de Borges), que tem coleções incríveis de cineastas, que tem vinis, que tem tanta coisa que nem tive tempo de respirar. A maior livraria da América, imagine você. Quando você vier aqui - sim, eu ainda gosto de acreditar que virá - vai ser o primeiro lugar a te levar.
De qualquer modo, a tempestade passou um pouco mesmo. Com o resto dela, eu tenho me acostumado. As coisas se reconstroem agora. Ou simplesmente acabam. Os começos de ciclos e os fins deles são assim, não é verdade?
Hoje a insônia veio um pouco tarde. Fui dormir tão cedo, mas cá estou, às 02:31 te respondendo a carta. É engraçado como, invariavelmente, escrevo à noite. Como, para mim, não há silêncio durante o dia. Quando preciso escrever ao dia, me tranco no quarto, que é escuro e silencioso. Este ano, quero ir aí te ver. Sem desculpas. Guarde um dois dias para mim. Guarde um pouco de vinho - mesmo que seja suave. Guarde um lugar para dormir no seu sofá.Guarde um pouco de suas tardes frescas de julho.

Com amor,

Lissa.
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